Guerra civil em chimpanzés
Quando uma comunidade é fraturada em inimigos letais
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Guerra civil em chimpanzés
A longa lista de semelhanças compartilhadas entre nós e os chimpanzés, nossos parentes vivos mais próximos, tem um inquietante componente: eles também fazem guerras. Não se trata apenas de conflitos isolados entre indivíduos. Há conflitos entre grupos, com coordenação social, alianças políticas, ataques coordenados e ocupação gradual do território rival.
Já entre 1974 e 1978, Jane Goodall, a primeira a estudar chimpanzés na natureza, relatou uma guerra civil em Gombe, na Tanzânia. Inicialmente existia apenas um grupo social. Com o passar dos anos, parte dos indivíduos começou a ocupar outra região do território e as interações diminuíram progressivamente. Essa separação gradual levou à formação de dois grupos: Kasakela (no norte) e Kahama (no sul).
Grupos de machos se deslocavam silenciosamente pelas bordas do território em busca de indivíduos isolados. Após anos de conflito, o grupo Kahama deixou de existir como unidade social. Na época, muitos cientistas viam os chimpanzés como animais altamente cooperativos e relativamente pacíficos. Mas os estudos mostraram algo mais complexo: os mesmos indivíduos que compartilhavam alimento, cuidavam dos filhotes e cooperavam dentro do grupo também podiam demonstrar agressividade intensa contra grupos externos.
Décadas depois, outro caso chamou a atenção na reserva de Kibale, Uganda, envolvendo uma comunidade selvagem com cerca de 200 chimpanzés. Por ser um grupo grande, eles viviam em um sistema social chamado fissão-fusão: os indivíduos frequentemente se separavam em subgrupos menores e depois voltavam a se reunir. Alguns desses subgrupos interagiam mais entre si, compartilhando patrulhamento, proteção mútua, higiene social e alianças. Com o tempo, porém, a comunidade passou a se dividir em dois blocos principais: grupo ocidental e grupo oriental. As trocas entre eles diminuíram até que, em 2015, ocorreu um primeiro confronto importante. Depois disso, os grupos ficaram semanas sem interagir.
Em 2017, os patrulhamentos se tornaram mais violentos e passaram a envolver ataques direcionados aos indivíduos do grupo rival. Posteriormente começaram episódios sistemáticos de infanticídio: filhotes do grupo rival passaram a ser mortos repetidamente. Ao longo dos anos o conflito se intensificou até que um dos grupos entrou em colapso social. Em 2024, o conflito foi considerado encerrado após o desaparecimento de um dos grupos como unidade funcional.
Mas afinal, o que fez tudo isso acontecer? Chimpanzés vivem em grupos onde território, proteção e alianças são essenciais. Quando esses grupos crescem e passa a haver competição por espaço, a cooperação entre eles diminui. Por isso, a guerra pode ser vista como um efeito da própria cooperação: os chimpanzés ajudam os membros do seu grupo, mas podem agir de forma agressiva contra grupos rivais. Mas havia algo a mais.
Logo antes da guerra, ocorreu uma disputa pela dominância no grupo entre alguns machos jovens. Na mesma época, uma epidemia respiratória havia matado alguns indivíduos conciliadores, que mantinham fortes vínculos com toda a comunidade. Assim, a teia social se rompeu. As guerras dos chimpanzés mostram que a gestão de conflitos sociais requer a manutenção de redes sociais cordiais e inclusivas. Não se trata apenas de compreender as culturas de outros grupos, mas também de cultivar as amizades que os conectam.


