Não existem "fósseis vivos"

Um termo enganoso que poderia ser extinto

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Não existem "fósseis vivos"

O termo "fóssil vivo" é uma das expressões mais populares e, ao mesmo tempo, mais enganosas da Biologia. O termo é usado para descrever organismos em artigos científicos, notícias, posts de blog e até em rótulos de museus. Organismos como celacantos, náutilos, tuataras, caranguejos-ferradura, camarões-girino e lampreias quase sempre são mencionados como fósseis e relíquias vivas.

O termo foi usado de forma passageira por Charles Darwin, em referência aos peixes esturjões: “essas formas anômalas podem quase ser chamadas de fósseis vivos; eles perduraram até os dias atuais.’’ Mas não é bem assim...! O termo se popularizou por repetição, sem definição clara. Mas dizer que “fósseis vivos” são espécies antigas é uma afirmação enganosa. Mesmo quando aparece entre aspas, como se houvesse a consciência de que o conceito é problemático, ainda é transmitida a falsa ideia de que algumas espécies teriam parado no tempo. O próprio Darwin advertiu: “nós devemos buscar por formas intermediárias entre as espécies e um ancestral comum, tendo em mente que este ancestral comum difere em alguns aspectos de todos seus descendentes modificados”.

Infelizmente, essa noção, mencionada por Darwin apenas de passagem, persistiu de modo errôneo ao longo do tempo. Não é surpreendente que criacionistas frequentemente explorem os chamados “fósseis vivos” como supostos argumentos contra a evolução. Eles costumam comparar imagens de fósseis a organismos atuais para sugerir, de forma enganosa, a ausência de mudanças evolutivas. Isso mostra o quanto expressões e conceitos equivocados ou mau compreendidos podem ser distorcidos para disseminar desinformação se passando por ciência.

A forma é apenas um aspecto da evolução, e a evolução dos genes pode contar outra história. Diferentes espécies podem evoluir a diferentes taxas. O peixe-jacaré de fato tem baixas taxas de evolução genômica. Devido a sistemas de reparo de DNA muito eficientes, eles acumulam poucas mutações. Já o celacanto e o caranguejo-ferradura acumulam mutações na mesma velocidade que a maioria dos vertebrados, enquanto o tuatara apresenta uma das mais altas taxas de evolução genômica entre os vertebrados. Então por que estes animais não parecem estar mudando?

No caso do caranguejo-ferradura, sua forma está muito bem adaptada a seus hábitos, de maneira que a tendência é que os indivíduos com mutações que afetam a forma simplesmente não deixem descendentes. Assim, a seleção natural favorece a estabilidade da forma. No tuatara, sua alta taxa de evolução molecular está relacionada a mutações que não alteram a forma, e seu esqueleto vem mudando apenas sutilmente ao longo do tempo, com seu corpo sendo muito bem adaptado ao ambiente de tocas.

O caso dos celacantos é emblemático. Pensava-se que eles estivessem extintos há 66 milhões de anos, até que uma espécie viva foi descoberta em 1938. Assim, este peixe foi condenado à fama de “fóssil vivo”. Entretanto, as espécies fósseis de celacantos habitavam ambientes continentais de água doce, enquanto os celacantos modernos habitam águas oceânicas profundas, o que implica em grandes mudanças evolutivas em características ecológicas, fisiológicas e bioquímicas.

Além disso, até mesmo a suposta falta de mudança de forma é bastante questionável, pois há uma grande diversidade de formas e tamanhos entre espécies fósseis e atuais. A evolução não é uma escala de progresso, em que algumas espécies param de evoluir em um certo estágio, mas uma árvore de diferentes linhagens, onde todas diferem de seus ancestrais. Assim, não faz sentido chamar espécies atuais de “primitivas” ou “fósseis vivos”. Estes sim, são termos que poderiam ser extintos.